Experimenta-se um período em que se perdeu a habilidade de aguardar. No trânsito, aguarda-se com impaciência; nas filas, com irritação; nas interações, com ansiedade. A tecnologia encurtou distâncias, agilizou as comunicações e diminuiu prazos, entretanto, não erradicou um aspecto fundamental da existência: a vida permanece acontecendo no tempo. O tempo nunca se submete inteiramente ao desejo humano.
É provável que essa seja a razão pela qual a espera se tornou uma das experiências mais desagradáveis da atualidade. Ela impõe o enfrentamento daquilo que se tende a evitar: a consciência de que o controle sobre tudo é inexistente. Aguardar é admitir que há processos cujo desenvolvimento não está subordinado apenas à vontade.
Existem sementes que não germinam antes do ciclo apropriado, aflições que não se dissipam por ordem e resoluções que apenas o transcorrer do tempo pode elucidar.
Os ancestrais já reconheciam essa realidade. A tranquilidade não se resumia a controlar os eventos, mas sim a aprender a viver com aquilo que está além do controle. A impaciência surge quando se requisita ao mundo uma rapidez que é exclusiva das máquinas.
Entretanto, a natureza transmite uma lição distinta: os rios não fluem de maneira apressada, as árvores não se elevam por ansiedade e o amanhecer nunca pode ser antecipado.
A espera inclui, igualmente, uma faceta espiritual. Não se refere a permanecer com a passividade, mas a manter aberta a oportunidade para o imprevisto. Há uma modalidade de atenção silenciosa que converte a expectativa em uma acolhida da realidade, afastando-se da simples passividade (Simone Weil). Nesse contexto, aguardar é uma prática de humildade. Implica reconhecer que a realidade sempre reserva aspectos que permanecem desconhecidos.
Contudo, a sociedade voltada para o desempenho transformou a espera em desperdício. Cada segundo deve gerar resultados, cada momento precisa ser aproveitado, e cada silêncio precisa ser preenchido. A habilidade de permanecer diante do vazio se perde, levando a um recurso imediato ao celular, às notificações ou ao entretenimento.
A aceleração constante cria a percepção de movimento, todavia, muitas vezes empobrece a vivência. Essa é uma ideia fundamental na obra de Byung-Chul Han.
Existem distinções significativas entre ocupar o tempo e permitir que ele influencie a todos. A espera genuína não constitui um mero intervalo entre dois eventos; ela integra o processo formativo do indivíduo. Aquele que aguarda atinge a maturidade.
Compreende-se que determinadas respostas não são alcançadas devido à busca efetuada de maneira excessivamente apressada. Certas interpretações requerem uma abordagem pausada. Não devido a uma limitação intelectual, mas em razão de sua vinculação à vivência.
A própria filosofia nasceu da espera. Sócrates caminhava lentamente pelas ruas de Atenas, fazendo perguntas que não podiam ser respondidas imediatamente. Pensar sempre exigiu tempo. As grandes ideias dificilmente surgem sob a pressão da urgência. Elas amadurecem como os frutos, quase imperceptivelmente.
Talvez uma das maiores perdas desta época seja justamente a incapacidade de esperar. Confunde-se rapidez com profundidade, velocidade com progresso e instantaneidade com verdade. Pessoas esquecem que quase tudo aquilo que realmente importa - a amizade, o conhecimento, o amor, a justiça e a sabedoria - resiste aos relógios.
No fim, esperar talvez não seja perder tempo. É razoável permitir que o tempo realize aquilo que nenhuma pressa conseguiria produzir. Porque há respostas que apenas chegam quando se deixa de persegui-las. E muito provavelmente a vida, em sua discreta sabedoria, tenha reservado suas maiores revelações justamente para aqueles que aprenderam a esperar.
É por aí...
Gonçalo Antunes de Barros Neto tem formação em filosofia, sociologia e direito. É membro da AML e do IHGMT
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