As manhãs começavam com um gesto simples: abrir as janelas da casa.
A claridade entrava lentamente, trazendo o ar fresco, o canto dos pássaros e o movimento da rua ainda silenciosa.
Parecia que o dia inteiro respirava junto com a família, enchendo os ambientes de esperança e renovando a disposição para viver.
As casas antigas abriam suas janelas diretamente para a rua.
Não eram protegidas por muros altos.
A luz da manhã invadia os cômodos, acompanhada da brisa fresca e do alegre canto dos pássaros.
Depois do café passado na hora, era um prazer permanecer debruçado no parapeito da janela, conversando com os vizinhos e com aqueles que seguiam pelas calçadas rumo ao trabalho.
Era um costume do cuiabano levantar antes mesmo de o dia clarear para ouvir os noticiários das emissoras de rádio do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Bem informado, transmitia as novidades aos madrugadores da rua.
Curiosamente, as grandes notícias pareciam acontecer sempre durante a madrugada.
Nasci durante a Segunda Guerra Mundial, que terminou em 1945, quando eu ainda era menino.
O conflito começou na Europa e, pouco a pouco, envolveu quase todo o planeta.
Por causa da diferença de fuso horário entre Cuiabá e a Europa, muitos acontecimentos ocorriam enquanto dormíamos.
Daí a importância de acordar cedo para conhecer as novidades que chegavam pelo rádio.
Naquele tempo também era comum as donzelas fugirem de madrugada para se casar contra a vontade dos pais.
A ausência só era percebida com a claridade do dia, assim como muitos crimes ocorridos no baixo meretrício, descobertos apenas ao amanhecer.
As notícias locais chegavam pela voz dos primeiros transeuntes que cruzavam a rua.
Era um jornal falado, espontâneo e confiável, transmitido por trabalhadores que iniciavam cedo a sua jornada.
Hoje restam apenas as lembranças.
Abrir a janela ao amanhecer era muito mais do que deixar a luz entrar em casa.
Era abrir espaço para a vida, para as conversas, para as notícias e para a esperança de um novo dia.
São cenas simples que o tempo transformou em histórias, mas que permanecem abertas na janela da memória.
Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado
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