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Café passado na hora

Café passado na hora

Existem aromas capazes de despertar lembranças instantaneamente. 

O café passado na hora espalhava seu perfume pela casa inteira e convidava todos para uma pausa. 

Não era apenas uma bebida, mas um gesto de acolhimento. 

Em torno da mesa surgiam conversas, visitas inesperadas e momentos de convivência que permaneceram guardados na memória de muitas famílias. 

As antigas famílias cuiabanas viviam cercadas por aromas que marcavam a existência. 

O cheiro do café recém-passado era um deles. 

O perfume da terra molhada, depois da primeira chuva, era outro. 

Bastava senti-los para que a memória abrisse, sem esforço, as portas do passado. 

Vivíamos intensamente as pausas dos dias. 

Havia tempo para conversar, recordar, observar a vida e desfrutar dos pequenos prazeres que hoje parecem tão raros. 

Os aromas tinham o poder de nos despertar para aquilo que realmente importava. 

Na velhice, revivemos muitas vezes os filmes da nossa juventude. 

A vida transforma-se numa sucessão de lembranças que retornam com surpreendente nitidez. 

Envelhecer conservando a memória é um privilégio que se renova a cada amanhecer. 

Aos noventa e um anos, recordo detalhes da minha infância desde os quatro anos de idade. 

Muitas coisas ficaram pelo caminho ao longo desta longa caminhada, mas nada apagou o essencial da minha história. 

Lembro-me dos meus pais, da minha querida Regina, dos meus filhos, dos primeiros passos na Medicina, da direção do Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, do magistério na Faculdade Federal de Direito e, mais tarde, da Universidade Federal de Mato Grosso, onde lecionei Ginecologia e Obstetrícia até a aposentadoria. 

Reconheço que a vida foi generosa comigo. 

A única lembrança que nunca consegui transformar em saudade serena foi a partida de Regina, há vinte anos, vencida por uma doença cruel quando parecia desfrutar de plena saúde. 

Há dores que o tempo não apaga. 

Apenas nos ensina a conviver com elas. 

E, curiosamente, basta o aroma de um café passado na hora para que a vida volte a sorrir dentro da memória.

Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado

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