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Madame Satã: do underground ao andar de cima

Madame Satã: do underground ao andar de cima

O Madame Satã nasceu em 1983, no Bixiga, quando São Paulo ainda tinha gosto de porão, fumaça de cigarro e muita vontade de fazer barulho. Por ali passaram bandas (que estavam começando ainda) que ajudaram a escrever a história do rock brasileiro, como Titãs, Legião Urbana, Ira!, Capital Inicial, RPM e Inocentes.

Era um lugar para punks, góticos, artistas, músicos... todo tipo de gente que queria ouvir música, beber, dançar e viver a noite do seu jeito. O Madame não era apenas uma casa noturna. Era um dos endereços mais importantes da cena alternativa paulistana.

Ali, a contracultura encontrou um endereço. Diversidade e muitas performances faziam parte do reduto tanto quanto as paredes antigas e a atmosfera meio decadente. O Madame era underground no sentido mais legítimo da palavra. Não era preciso muito dinheiro, sobrenome importante ou convite exclusivo. Bastava gostar daquele tipo de ambiente.

Quase quatro décadas depois, o casarão continua de pé. E é curioso perceber que um lugar tão associado à rebeldia tenha atravessado tantas fases de São Paulo sem perder completamente sua vocação para o inusitado. O Madame já viu o rock nacional nascer, crescer, trocar de roupa e envelhecer.

Viu artistas desconhecidos se transformarem em ídolos. Viu tribos surgirem e desaparecerem. Viu muita coisa. Talvez por isso não devesse surpreender ninguém que, em algum momento, o local também testemunhasse um tipo bastante diferente de extravagância.

Há uma certa ironia em ver um templo histórico da contracultura servindo de cenário para festas de gente que, em condições normais, provavelmente passaria longe de qualquer porão underground. É quase uma inversão poética. O lugar que durante décadas recebeu quem queria fugir do circuito tradicional da noite agora também recebe quem está muito bem instalado no andar de cima. A velha rebeldia ganhou novos convidados, diferentes dos alternativos dos anos 80.

Mas talvez seja essa a grande vocação do Madame Satã, continuar sendo um lugar onde mundos improváveis se encontram. O mesmo endereço que já viu e ouviu tanta coisa "que até Deus duvida", agora também testemunha extravagâncias que fariam até alguns veteranos da noite paulistana perguntarem: "mas que porra é essa?". Essa é a maior prova de que a casa continua fiel à sua história: ainda consegue surpreender.

O Madame Satã permanece ali, no Bixiga, carregando suas histórias, seus fantasmas e suas contradições. Já foi palco de artistas que estavam começando a carreira e ajudaram a transformar a música brasileira. Hoje, também pode ser cenário para quem tem dinheiro suficiente para transformar uma simples noite em um evento milionário.

Entre uma coisa e outra, o Madame segue fazendo o que sempre fez: abrindo as portas para personagens improváveis. O underground continua vivo, embora algumas pessoas tenham descoberto que dá para chegar até lá de automóvel blindado.

Bruno Moreira (@obrunocos) é publicitário e profissional de comunicação e marketing

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