O Dia de Reis, comemorado em 6 de janeiro, não é apenas uma data religiosa, mas uma celebração que transcende fronteiras e crenças. Desde criança ouvia histórias contadas por minha mãe, uma mulher do
interior paulista, onde a folia de Reis é uma herança cultural profundamente enraizada, e assim fui apresentada a essa tradição e com o tempo me tornei uma foliã de reis.
Essa tradição, nascida nos ritos católicos de novenas, terços e procissões, ganhou um aspecto mais amplo ao longo do tempo. Hoje, ela abraça pessoas de diversas denominações religiosas e se tornou um movimento cultural, mantendo suas raízes na religiosidade e na fé das pessoas que desejavam espalhar a história da natividade.
Participar das folias de Reis é testemunhar uma forma única de pregação, uma narrativa alegre, mais divertida e harmoniosa das histórias bíblicas. Não se trata apenas da folia de Reis; há também as folias de Santo Antônio, São Pedro e outras, todas baseadas nos relatos da Bíblia sobre personagens e eventos marcantes.
A essência das folias de Reis vai muito além do canto, ela se manifesta na dedicação genuína dos participantes. Não é preciso ser católico para sentir a emoção tocando no coração. Vivenciei em Minas Gerais a preparação dessas festividades pela família Pires, família que tradicionalmente participa da folia, uma experiência que revelou como a harmonia vocal e a improvisação se unem para criar um espetáculo único. É nato, eles cantam com o coração, sem ensaios prévios, apenas com a naturalidade de quem mantém viva a tradição.
A jornada das folias, percorrendo de casa em casa, é uma representação simbólica das viagens dos Magos e pastores em busca do nascimento de Cristo. A cada parada, há uma celebração calorosa, abençoando os lares e compartilhando histórias sagradas.
Essas peregrinações não são simples, são como penitências que envolvem caminhadas por terras distantes, atravessando matas e córregos, tudo para espalhar a mensagem da natividade. É uma prática que ecoa os relatos bíblicos de peregrinações em busca de acolhida, alimento e abrigo.
A finalização da jornada, no dia 6 de janeiro, é uma ocasião especial. É quando, diante do presépio, as canções transcendem em agradecimento ao nascimento de Jesus. É o momento de festa, de compartilhamento, onde a comida é oferecida livremente, em espírito de comunhão e solidariedade.
Participar ativamente desse movimento me permitiu compreender a importância das tradições culturais na construção da identidade de um povo. Embora a origem da folia de Reis remonte a Portugal, foi no Brasil que ela se tornou uma tradição vibrante, capaz de unir pessoas de diversas crenças em torno de um propósito comum: celebrar a vida e a história de Jesus Cristo.
As folias de Reis vão além de uma simples festividade, gera sentimentos de saudade boa e alegria, conecta gerações, fortalecendo laços familiares e comunitários. O poder das folias de Reis está na capacidade de unir, emocionar e compartilhar uma mensagem de paz, amor e fé, independentemente das diferenças individuais.
Assim, anualmente, quando o Dia de Reis se aproxima é hora de ouvir as cantorias que ecoam em vários lugares deste nosso Brasil com os perseverantes foliões.
Sonia Mazetto é gestora de potencial humano, fonoaudióloga e foliã dedicada do Dia de Reis
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