Findada a eleição de 2026 em Mato Grosso, sucessivas surpresas surgiram em função de uma série de nuances. Entre elas, talvez uma das mais impactantes tenha sido a composição das chapas, tanto majoritárias quanto proporcionais.
A partir do resultado final, foi possível fazer uma análise mais criteriosa dos erros e acertos de algumas coligações partidárias. Algumas delas davam como praticamente garantida a eleição de determinados candidatos e, no resultado final, acabaram se decepcionando.
Com os votos apurados, já é possível fazer uma análise mais consistente do que aconteceu na disputa para deputado estadual em Mato Grosso, tomando como base os resultados das urnas.
Mato Grosso elegeu 24 deputados estaduais. A votação, por ser proporcional, apresentou uma distribuição partidária bastante fragmentada: Podemos elegeu seis deputados; PL e Republicanos, quatro cada; MDB, três; PT, União Brasil e PSDB, dois cada; e PSD, um.
Individualmente, os três primeiros colocados foram Max Russi (Podemos), com 86.934 votos; Lúdio Cabral (PT), com 86.107; e Gilberto Cattani (PL), com 69.672 votos.
Um dado politicamente interessante é a proximidade entre os dois primeiros colocados. A diferença entre Max Russi e Lúdio Cabral foi de apenas 827 votos.
O que realmente aconteceu
A eleição não pode ser analisada apenas pela ordem dos candidatos mais votados. Como se trata de uma eleição proporcional, o desempenho da legenda também é decisivo.
O eleitor vota no candidato, mas os votos também contribuem para a formação da bancada partidária. Por isso, votação individual e número de cadeiras conquistadas são fenômenos diferentes.
O resultado de 2026 apresenta algumas características importantes.
Podemos saiu com a maior bancada
Com seis cadeiras, o Podemos foi o partido que mais elegeu deputados estaduais. Além de Max Russi, o recordista e principal puxador de votos da legenda, foram eleitos Ulysses Moraes, Beto Dois a Um, Alessandra Ferreira, Fabinho Tardin e Adelcino Lopo.
Isso significa que o resultado não foi apenas uma vitória individual de Max Russi em número de votos. Houve também um desempenho coletivo da legenda.
Na minha análise anterior às eleições, eu havia feito uma projeção de cinco eleitos pelo Podemos. Errei. O partido conseguiu uma cadeira a mais do que a previsão inicial.
PL mantém forte presença
O PL conquistou quatro cadeiras: Gilberto Cattani, Samantha do Abílio, Faissal e Alcino Barcelos.
Cattani ficou em terceiro lugar na votação geral, com 69.672 votos, enquanto Samantha do Abílio alcançou 57.900 votos, consolidando uma votação expressiva.
Outro novato, o ex-prefeito de Pontes e Lacerda, Alcino Barcelos (PL), foi eleito deputado estadual com 22.624 votos, o equivalente a cerca de 1,17% dos votos válidos para o cargo.
Republicanos e a chamada “chapa da morte”
O Republicanos foi considerado uma espécie de “chapa da morte”, em função da concentração de candidatos competitivos, inclusive vários detentores de mandato.
Ainda assim, apenas quatro foram eleitos: Diego Guimarães, Valmir Moretto, Dr. Eugênio e Nininho.
Na condição de suplentes ficaram Paulo Araújo, Ari Lafin e Alan Porto.
O resultado estadual também deve ser observado dentro de um cenário mais amplo de fortalecimento das forças de direita nas eleições de 2026 em Mato Grosso.
PT preserva seu espaço
O PT conseguiu preservar espaço na Assembleia Legislativa, mantendo os dois mesmos nomes.
Lúdio Cabral foi o segundo deputado estadual mais votado do Estado, com 86.107 votos, enquanto Valdir Barranco também foi eleito, com 32.137 votos.
Não houve, portanto, novidade em relação à representação petista. Isso é relevante porque demonstra que, apesar da forte presença de candidaturas de direita no resultado estadual, a esquerda manteve sua representação parlamentar.
Renovação, mas também continuidade
No artigo anterior, eu já havia afirmado que dificilmente o partido Novo elegeria pelo menos um candidato, mesmo tendo em sua composição o deputado estadual Elizeu Nascimento, em função do coeficiente eleitoral, número mínimo de votos que um partido ou federação precisa alcançar para conquistar uma vaga no Legislativo.
A nova Assembleia Legislativa não representa uma ruptura completa com a legislatura anterior.
Há nomes conhecidos da política mato-grossense entre os eleitos, ao mesmo tempo em que novos nomes chegaram ao Legislativo.
Entre os eleitos aparecem, por exemplo, Dilmar Dal Bosco, Dr. João, Wilson Santos, Carlos Avallone, Valdir Barranco, Sebastião Rezende, Faissal e outros políticos já conhecidos do eleitorado estadual.
Esse equilíbrio entre renovação e continuidade é um dos aspectos mais interessantes do resultado.
Um aspecto que merece atenção
A votação revela também uma concentração significativa de votos entre os candidatos mais competitivos.
Max Russi e Lúdio Cabral, juntos, somaram 173.041 votos.
Mas o resultado também demonstra que não basta ter uma votação individual expressiva. A composição final da Assembleia depende da matemática eleitoral das legendas e da distribuição dos votos dentro de cada partido ou federação.
É justamente nesse ponto que muitos candidatos, mesmo com votações consideradas expressivas ficaram de fora, enquanto outros, com votação individual menor, conseguem conquistar uma cadeira.
Participação do eleitor
Outro dado importante foi a participação eleitoral.
A abstenção em Mato Grosso chegou a 22,21%. Foram registrados 1.927.426 votos válidos, enquanto os votos brancos representaram 3,83% e os nulos, 2,14%.
Portanto, mais de um em cada cinco eleitores aptos não compareceu às urnas.
Esse dado também ajuda a compreender a dinâmica da eleição, embora não permita, isoladamente, concluir por que cada eleitor deixou de votar.
Minha leitura do quadro que se formou
O que aconteceu em Mato Grosso em 2026 foi uma eleição para a Assembleia Legislativa marcada por uma disputa competitiva entre diferentes campos políticos, forte presença de partidos de direita e centro-direita, manutenção da representação petista e uma bancada numericamente expressiva do Podemos.
O dado mais significativo talvez seja o fato de que a Assembleia que emerge das urnas não ficou concentrada em um único partido.
São sete siglas representadas, e a maior bancada terá seis das 24 cadeiras.
Isso terá consequência direta para o próximo período: a capacidade de articulação entre as bancadas será fundamental para a formação das maiorias dentro da Assembleia Legislativa.
Mais do que simplesmente apontar vencedores e derrotados, a eleição proporcional de 2026 deixa uma lição clara: na política, especialmente nas disputas proporcionais, não basta ter bons candidatos.
É preciso construir chapas competitivas, compreender a matemática eleitoral e saber distribuir forças dentro da legenda.
O voto para a Assembleia não aconteceu isoladamente. Ele fez parte de uma mesma conjuntura eleitoral, na qual estratégias partidárias, desempenho individual dos candidatos e comportamento do eleitorado se combinaram para produzir o novo desenho político de Mato Grosso.
Licio Antonio Malheiros é jornalista, articulista e geógrafo
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