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Recebendo a encomenda

Recebendo a encomenda

Quando alguém chegava trazendo um pacote ou uma pequena encomenda, a curiosidade tomava conta da casa. 

Muitas vezes eram lembranças enviadas por parentes distantes ou produtos difíceis de encontrar. 

Antes mesmo de abrir o embrulho, a imaginação já fazia seu trabalho. 

O maior valor quase nunca estava no presente, mas no carinho de quem se lembrou de enviar. 

Sou do tempo em que era comum receber pacotes e pequenas lembranças de familiares que moravam longe. 

Cada encomenda parecia diminuir a distância e aproximar as pessoas. 

O objeto tinha seu valor, mas era o gesto que realmente emocionava. 

No dia do meu aniversário, os telegramas que recebia eram colocados sobre a minha cama, ao lado dos presentes. 

As visitas os liam e, de certa forma, compartilhavam comigo a alegria de ser lembrado. 

Recordo-me de um episódio muito especial. 

Meu avô viajaria justamente na época do meu aniversário e, antes de partir, perguntou-me: 

— Você prefere receber agora o presente perfumado, em dinheiro, ou um bonito telegrama para chegar no dia do aniversário? 

Respondi sem hesitar: 

— Os dois. 

Saí da casa dele com o dinheiro no bolso e, no dia do aniversário, recebi o esperado telegrama. 

Com o tempo compreendi que o dinheiro logo era gasto, mas as palavras carinhosas permaneciam guardadas na memória e no coração. 

Durante os anos em que estudei Medicina no Rio de Janeiro, nunca voltava a Cuiabá sem levar uma pequena lembrança para os meus pais. 

Mais tarde entendi que o melhor presente não era o que eu carregava nas mãos, mas a minha própria presença ao lado deles. 

Certa vez ofereci ao meu pai um belo chaveiro de ouro, preso a um grosso cordão, presente que havia recebido de uma paciente agradecida. Ele agradeceu com carinho, guardou-o no cofre do quarto e jamais o utilizou. 

O objeto pouco lhe importava. 

O que realmente o emocionava era o gesto do filho. 

Hoje, olhando para trás, percebo que os maiores presentes da vida nunca vieram embrulhados. 

Foram os abraços, os reencontros, as palavras de afeto e o privilégio de estar presente na vida daquele que amamos.

Dar e receber carinho continua sendo a mais valiosa das lembranças. 

Às vezes, um abraço silencioso vale mais do que qualquer encomenda. 

Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado

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