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Silêncio nas repartições públicas

Silêncio nas repartições públicas

Nos feriados e pontos facultativos as repartições públicas fechadas parecem guardar um silêncio especial. 

Corredores vazios, mesas sem papéis novos, telefones mudos, portas trancadas.

Quem trabalhou muitos anos no serviço público conhece bem esse contraste.

De um lado, a rotina cheia de demandas, papéis, despachos, assinaturas e telefonemas.

De outro, o descanso coletivo, quando até os prédios parecem agradecer a pausa imposta pelo calendário.

Como comemoramos muitos feriados, nesses dias que deveriam ser apenas de descanso, acabamos saindo da rotina comum.

Muitos aproveitam para viajar, fazer trilhas, procurar riachos, cachoeiras e rios piscosos.

Há jogo de baralho para uns, redes estendidas para outros, comida simples, conversa jogada fora e a algazarra boa das crianças brincando.

Tudo isso faz um bem danado!.

Fico lembrando a volta para casa, com todos alegres, queimados de sol, cheios de histórias e muito cansados.

Parece que apenas os prédios públicos, com suas portas e janelas fechadas, agradecem o feriado em silêncio quase sepulcral.

Tudo fica diferente.

O ponto de taxi em frente à repartição não funciona como nos dias comuns, e até as linhas de ônibus parecem circular em outro ritmo.

O funcionário zeloso, aquele que tem a chave da repartição, às vezes aproveita o silêncio para colocar o expediente em dia. 

Leva de casa a marmita e passa parte do feriado trabalhando, talvez porque encontre no prédio vazio uma paz rara.

Antigamente tínhamos poucos feriados nacionais.

Com o tempo, porém, o comércio, necessitando incrementar suas vendas num mundo consumista, passou a transformar quase tudo em data comemorativa. 

Estados e municípios também criaram seus feriados, e o calendário foi ficando cada vez mais generoso em pausas.

Com o desenvolvimento urbano, as cidades ficaram muito próximas.

No nosso caso, surgiu a Grande Cuiabá, um conjunto de cidades irmãs, unidas por pontes, estradas, serviços e costumes. 

Atravessamos o rio Cuiabá e chegamos a Várzea Grande, a segunda cidade mais populosa do Estado.

Mais adiante está Livramento, terra de leite e derivados.

Subindo a serra, rumo ao Portão do Inferno, encontramos a turística Chapada dos Guimarães, com sua beleza antiga e sempre renovada. 

Na estrada de Santo Antônio do Leverger está sendo construído o novo Hospital Universitário da UFMT.

Cada uma dessas cidades tem seus feriados, suas tradições e suas pausas.

Quando o calendário permite, as pessoas procuram movimento, viagem, lazer e convivência. 

As repartições, ao contrário, ficam imóveis.

Fecham suas portas, calam seus telefones, apagam suas luzes. 

E, por um dia, parecem respirar em paz. 

Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado

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