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Silêncios vazios

Silêncios vazios

A porta velha se anuncia antes de abrir, como se pedisse licença para entrar no presente.

Da varanda da minha casa, minha mãe sabia que alguém estava chegando pelo barulho da fechadura da porta da rua.

Não precisava olhar, nem perguntar.

Cada volta da chave tinha dono, tinha pressa ou calma, tinha história.

Antigamente os objetos tinham um prazo de validade bastante elástico, como se nunca acabassem.

A indústria trabalhava com esse objetivo, bem diferente dos dias atuais, em que tudo já nasce com data marcada para virar lixo.

Hoje são raras as casas com fechaduras de chaves, que foram substituídas por senhas silenciosas, digitais ou cartões.

Abrem sem ruído, sem aviso, sem memória.

É o presente tentando apagar as antiguidades que, no fundo, ainda foram ontem.

Revendo meus papéis esquecidos nas gavetas do escritório, encontrei anotações sobre uma série de objetos, agora em desuso: máquina de escrever, vitrola, rádio de válvula, ferro a carvão, telefone de disco.

E, entre eles, a velha fechadura da porta da frente.

Cada item desses carregava som, peso e presença.

A fechadura tinha personalidade.

Rangia no frio, reclamava da pressa, denunciava visitas inesperadas.

Minha mãe distinguia o passo do carteiro, o atraso do meu pai, a chegada de uma visita querida.

Tudo começava naquele barulho metálico que ecoava pela casa.

Era impossível entrar despercebido.

A casa participava da chegada.

Hoje, mal percebemos quando alguém entra ou sai.

As portas se abrem em silêncio, como se pedissem desculpas por existir.

As casas modernas perderam o direito de escutar quem chega.

Ganharam segurança, conforto, rapidez — mas, perderam cumplicidade.

Sinto falta do aviso da fechadura antiga, daquele barulho que preparava o coração antes do encontro.

Ele dava tempo para ajeitar o corpo, o sorriso e a alma.

Talvez por isso o silêncio das portas de hoje pareça tão vazio!

O barulho da fechadura antiga não abria apenas a porta da rua.

Abriu, durante anos, a porta da memória — e essa, felizmente, ainda resiste ao tempo.

Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado

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