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A política da fantasia

A política da fantasia

Nos tempos atuais, observa-se um fenômeno recorrente nas democracias contemporâneas: a ascensão do discurso político desprovido de compromisso com a verdade. Políticos mal-intencionados e carentes de conhecimento técnico têm transformado o espaço público num palco de distorções, onde a emoção suplanta a razão e o espetáculo substitui o debate racional.

Essa prática antiga, hoje amplificada pelas redes sociais e pela cultura do imediatismo, consiste na construção de narrativas falsas ou distorcidas que exploram os sentimentos mais primários do eleitorado: o medo, a raiva, a indignação e o ressentimento. Ao invés de informar, esses discursos inflam; ao invés de esclarecer, confundem. Trata-se de uma política fundada na emoção e não na razão,  uma política da fantasia.

Do ponto de vista filosófico, essa estratégia pode ser compreendida à luz de pensadores como Platão e Hannah Arendt. Platão, ao tratar da retórica sofista, já alertava para o perigo daqueles que utilizam a palavra não como instrumento de busca da verdade, mas como meio de sedução e dominação. Arendt, por sua vez, em A Mentira na Política, analisa como regimes e líderes podem moldar realidades paralelas, nas quais o discurso substitui os fatos.

Esses políticos fabricam “realidades alternativas”, sustentadas por crenças ideológicas e crimes fictícios, que servem para justificar suas posições e demonizar adversários. A verdade deixa de ser um valor político, transformando-se num obstáculo à conquista do poder.

Do ponto de vista sociológico, essa construção de narrativas falsas cumpre uma função de coesão simbólica. O discurso emocional cria um senso de pertencimento, de “nós contra eles”, mobilizando o eleitor por meio de uma identidade comum. Essa identidade, porém, é construída sobre ilusões: a fantasia de um inimigo interno, de uma conspiração invisível, ou de uma corrupção moral atribuída a quem pensa diferente.

Essa “catequese ideológica”, como pode ser chamada, opera pela repetição e pela emoção. Assim como na religião dogmática, o discurso político se torna uma fé: não se questiona, acredita-se. O eleitor deixa de ser um cidadão racional para tornar-se um fiel.

A ciência política, ao analisar o comportamento eleitoral, demonstra que sociedades expostas continuamente à desinformação tendem a enfraquecer seus laços democráticos. Quando o discurso público é dominado por fantasias e inverdades, a confiança nas instituições se deteriora.

A democracia, que deveria ser um espaço de deliberação racional e plural, torna-se um campo de batalha simbólico, onde vence quem grita mais alto, e não quem argumenta melhor.

Por isso, o combate à desinformação e à retórica emocional irresponsável não é apenas uma tarefa dos meios de comunicação, mas um dever ético de toda a sociedade. A educação política, a valorização do pensamento crítico e o incentivo à reflexão filosófica são as armas mais eficazes contra a manipulação e o fanatismo.

O discurso político desonesto não é apenas um problema moral — é uma ameaça estrutural à democracia. Quando a mentira se torna método e a fantasia se transforma em política pública, o que está em jogo não é apenas a disputa eleitoral, mas a própria capacidade de uma sociedade distinguir o verdadeiro do falso.

O desafio contemporâneo é, portanto, recuperar o valor da verdade como fundamento da convivência democrática. E isso só será possível quando o cidadão recusar o conforto da emoção manipulada e retomar a responsabilidade do pensamento livre.

João Edisom de Souza, analista político e professor universitário

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